Histórico


Votação
 Dê uma nota para meu blog


Outros sites
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis


 
Jornal da Selva


Oriente-Ocidente

Lições do I Ching

Ele diz com todas as letras:

É preciso persistência

Na travessia do grande rio

 

Diz que a luz do sol poente

Sinaliza o transitório

Da existência impermanente

 

E adverte: Nem euforia desenfreada

Nem tristeza amedrontada

Ambas totalmente erradas

 



Escrito por Narciso Lobo às 05h18
[] [envie esta mensagem] [ ]



Experimento Atonal

Três Vagalumes

Para P. E.

 

1

Sob o sol equatorial

Sentimentos e ressentimentos

Chove copiosamente

2

Trovões e pouca chuva

Menino não pode ser menina

Mas arco-íris brilha no céu

3

Forte desce o Negro

Adiante enlaça o Solimões

Rebojo e calmaria: um no outro



Escrito por Narciso Lobo às 23h59
[] [envie esta mensagem] [ ]



Devaneio

 

Cantos Deslizantes

 I

 Manaus

            Meu porto

Meu aeroporto

Meu penúltimo e (in) definitivo pouso.

 

O "Novo Amazonas"

(daqueles anos...)

Ficou velho.

 

Manaus

Apenas uma imagem

Cravada no âmago da memória.

 II

Todos os livros do mundo

Não estão sendo suficientes

Para explicar tanto sufoco

Tá ruço

Não tá dando pé.

Tem que haver mudança

Na dança do homem

Rotas, retas, curvas

Tangenciando mentiras oficiais

Não tá dando mais.

 III

Talvezes, talvezes, talvezes

Tantas vezes, tantas vezes.



Escrito por Narciso Lobo às 00h24
[] [envie esta mensagem] [ ]



Capitu na Tevê IV (e último)

O amor romântico faz água

Muito ainda se terá para dizer sobre essa experiência de adaptação de Dom Casmurro. No entanto, durante o sábado, e mesmo após a exibição do último capítulo, ficou bem presente, em mim, um texto curto e oportuno de Dante Moreira Leite chamado “O Amor romântico e outros e temas”, de 1964, editado pela Imprensa Oficial do Estado de S. Paulo, que comprei, há tempos, num velho Sebo da capital paulista.

Ali, Moreira Leite, com base na literatura dita romântica, que se produziu no Brasil, menciona algumas características que modelizaram essa percepção de relacionamento, tão presente no século XIX: como elemento primordial, estava a submissão da mulher ao mundo masculino. Nessa concepção de amor, ela precisava entregar-se, por inteiro, ser fiel e honesta, enquanto ao homem era reservado o recurso de manter seu casamento oficial, com vistas à constituição de uma prole, destinada reproduzir-se na tradição; ao mesmo tempo em que mantinha, sob condições rígidas, essa mulher “rainha do lar”, gozava das prerrogativas de buscar, fora de casa, os prazeres da alcova, liberado de qualquer limite.

E o que se passa com essa obra de Machado? Bentinho, alucinado ou não pelo ciúme, deixa fluir algo que não estava nos manuais de boas maneiras destinado às mulheres.  Contra ela, “seus olhos de cigana e oblíquos” e a capacidade dissimulatória.  O agora Dr. Bento Santiago, à medida que o filho Ezequiel vai crescendo, perde-se em devaneios: paranóia ou não, o menino lhe parece, cada vez mais, com o seu melhor amigo, Escobar... Portanto, todas as referências de um homem do século XIX em relação ao amor e ao casamento começam a fazer água. Abre-se uma cunha na tradição fechada do Brasil escravista. No entanto, para Capitu, dependente social e economicamente, só lhe resta mesmo exercer, caso procedam as suspeitas, o recurso da dissimulação.

Temi, sinceramente, que, nessa adaptação, a emissora utilizasse o mesmo ator de Escobar, ainda escolar, como Ezequiel, como aconteceu com a adaptação de Grande Sertão: veredas, de Guimarães Rosa, quando a personagem do valente Diadorim, foco do mistério, entregue para Bruna Lombardi, comprometeu, de pronto, o enigma da obra. Aqui, ficou preservada a ambigüidade: Bentinho, ao olhar para o filho, por um corte rápido, via este transmutar-se em Escobar...

Por último, uma menção às imagens caleidoscópicas que marcaram a abertura e os fechamentos, assim como dos intervalos dos capítulos: ali estão fragmentos de imagens, formas geométricas, jornais recortados, ou distorcidos, linhas verticais, horizontais, além de uma combinação de cores, etc. Essa construção gráfica me intrigou durante os cinco dias de exibição da minissérie. Cheguei a lembrar do porantim, o remo mágico dos índios tukanos, do alto rio Negro, com suas imagens ilegíveis para os não iniciados. É que ali, segundo a tradição, está contada toda a trajetória, mítica e imaginária, daquele povo; uma bíblia criptografada por meio de ideogramas.

Pensei comigo: tal como o porantim, aqui está o inconsciente de Bentinho, de Capitu; do amor romântico e das brechas, assim como das estratégias de fuga; em síntese, da polifonia milionária da obra de Machado e da sua adaptação televisiva. O ontem e o hoje da complexidade da vida. 



Escrito por Narciso Lobo às 13h44
[] [envie esta mensagem] [ ]



Capitu na Tevê III

 

Sedução e ciúmes

 

A entrada em cena de Escobar, como já era esperada, marca o ponto de clivagem, se assim podemos chamar, tanto da obra de Machado de Assis como da adaptação. E o primeiro a ser seduzido é mesmo Bentinho. Na verdade, a literatura brasileira tem outro exemplo famoso de sedução entre adolescentes em colégios internos, ou Seminários, na obra clássica de Raul Pompéia, O Ateneu.

             Ao visitar a casa de Dona Glória, o garboso Escobar chama a atenção de todos, por ser "bem apessoado" e "bonito" mesmo. Atrás dos vidros da janela de sua casa, está o olhar desejante de Capitu, fazendo lembrar uma precoce Madame Bovary. Com a diferença fundamental de que o narrador da obra de Flaubert é uma terceira pessoa, portanto distante e levemente simpático em relação em relação às inquietações da personagem, infeliz num casamento, cujo marido, médico de província, vai se tornando um bovino ser humano: descuidado, gordo e sem horizontes. Já o narrador de Dom Casmurro é um ressentido marido que tenta, a todo custo, provar, por evidências às vezes ínfimas e tolas, que sua Capitu é, além de oblíqua, dissimulada.

            Na cena do terceiro capítulo (11/12), em que Escobar retira-se, principesco e isolado no seu mistério, da visita à casa de Bentinho, já se tem a dimensão do que está reservado para aquele jovem na trama que está por vir. Não se pode perder de vista, todavia, que é um ressentido Bentinho, que a vida transformou num Dom Casmurro, quem está contando a história, amargurado, como ele mesmo o diz, pelo "puro ciúme" que brota das "entranhas". 

            O vestuário, como em qualquer boa obra, joga papel fundamental nesta minissérie: Bentinho, na sua ingênua vivência do primeiro (e único amor) aparece com freqüência trajando roupas claras, sobretudo, no seminário, camisões de dormir detalhadamente costurado com muitas franjas, enquanto, lá fora, a oblíqua Capitu veste-se com cores fortes, evoluindo dos tons pastéis para os tons avermelhados, rubros mesmo. Ao saber, na seqüência "Ponta de Iago", da boca do ambíguo agregado da família, José Dias, que Capitu vem levando vida normal, alegre e sorridente, o vermelho da paixão, em Bentinho, se transforma no vermelho do ódio e da vontade de vingança. Iago, para quem não lembra, é aquele personagem de Shakespeare, que induz Otelo a acreditar na infidelidade de sua amada Desdêmona.

            Por fim, vale destacar um feliz cruzamento entre a obra de Machado e a adaptação. É na seqüência "Um Soneto", logo no início do terceiro capítulo, quando o pequeno apaixonado resolve "cometer" o seu primeiro soneto: "Oh, flor do céu..." Na seqüência, vêm: "Perde-se a vida, ganha-se a batalha". Mas, para o angelical adolescente, perder a batalha, soa como desígnio fatal, algo inaceitável, e toda uma perplexidade se instala, até que ele inverte a ordem do seu verso: "Ganha-se a vida, perde-se a batalha..."

            Os sinos em preto e branco da velha igreja se movem; Bentinho inquieta-se. Às favas o soneto.



Escrito por Narciso Lobo às 12h32
[] [envie esta mensagem] [ ]



Capitu na Tevê II

 

Vertigem e clivagem

O segundo capítulo da minissérie ganhou ritmo mais veloz sem ter abandonado a proposta de uma hiper-representação teatral. O telespectador como que vai se habituando à gramática proposta e passa a fazer a sua leitura sem maiores dificuldades. É certo que essa experiência já foi testada antes, com Hoje é dia de Maria (2005) e com Pedra do Reino (2006). É bem verdade, diga-se, estávamos ali diante de textos que valorizavam o chamado realismo fantástico. Em Capitu, o novo pode ser visto na transformação de uma obra realista, ou o nome que se dê à ficção de Machado de Assis, do princípio do século XX.

O interessante, nessa leitura global, é que Dom Casmurro, como romance, não só resistiu ao tempo, mas, ao prestar-se a essa proeza inventiva, à luz das novas tecnologias televisuais, reafirmou-se como um clássico. E a boa maneira de identificar uma obra clássica é sua polissemia; quando a lemos, em diferentes épocas, tem o saber e o sabor de algo que se metamorfoseou em inúmeras outras possibilidades. Vista por esse ângulo, nada de muito estranho em relação à poética em que se estruturou essa produção coletiva, sob a batuta de Luiz Fernando Carvalho.

A coloquialidade de Machado, que teve em Nelson Rodrigues, por outros meios, igual sabor, apareceu bem melhor no dia de ontem (10/12), com a exploração da verborragia típica do século XIX, com seus títulos altissonantes, como "protonotário apostólico": é com esse título que a família e agregados da casa de Bentinho sonham vê-lo investido; quem sabe chegue a papa... 

Mas, à espreita, está Capitu, uma Julieta de outro tempo e de outro lugar, com "olhos de cigana, oblíquos, e dissimulada", diante de seu Bentinho-Romeu perdidamente apaixonado. Aliás, qualquer tentativa de levar Dom Casmurro para outros suportes passa primordialmente pela tradução da metáfora machadiana, mencionada antes, e pela definição visual do que pode ser alguém, ou alguma mulher, com "olhos de ressaca".

A adaptação para o cinema, de Paulo Cézar Saraceni (1968), foi buscar esse modelo na atriz de Isabela. Agora, a mesma preocupação com a metáfora dos olhos foi buscada numa atriz quase desconhecida, que a emissora informa chamar-se Letícia Persiles. Na obra de Saraceni, no bojo das utopias políticas, estava uma Capitu feminista. Hoje, não se tem ainda como espreitar que leitura essa adaptação do clássico machadiano vai exprimir, para um público bem maior e em condições técnicas e estéticas radicalmente diferentes.

Ao final do segundo capítulo, Bentinho foi finalmente para o Seminário São José, perdidamente apaixonado; ali, ele conhecerá Escobar, alguém que promoverá total clivagem no rumo da trama. Impossível não destacar as imagens condensadas, em diferentes momentos da minissérie, oferecendo quadros abstratos de extrema de beleza e dinamismo. E, sem dúvida, o giro do primeiro beijo, na cabeça do adolescente apaixonado, quase um desmaio, que a câmara transmite magistralmente, já se coloca como um ponto alto.  



Escrito por Narciso Lobo às 12h08
[] [envie esta mensagem] [ ]



Capitu na Tevê

Excesso de experimentalismo

 

O capítulo inaugural de Capitu, levado ontem (9/12), pela Rede Globo, deixou a sensação de “quero mais”. O excesso de teatralização, como recurso estético, inundou a obra de Machado de Assis de um experimentalismo videográfico e fez com que o texto maduro e a trama bem urdida, de Dom Casmurro, ficassem diluídos numa visualidade, mesmo que interessante...

            Trata-se apenas do primeiro capítulo desta minissérie, por certo; mas, sem dúvida, ali está a proposta estética de como virão os outros quatro.

            De fato, é complicada a adaptação de uma obra da literatura sobre a qual tantos se debruçaram, como críticos ou como simples fruidores.

            Gostei do que vi, sim, mas senti falta do texto de Machado, potente, ferino e demolidor, que ficou secundarizado.

            Mas a discussão deve continuar. E a minissérie também.



Escrito por Narciso Lobo às 10h27
[] [envie esta mensagem] [ ]



Antídoto para a crise

Dessa crise econômica, direta ou indiretamente, ninguém vai escapar;

no entanto, como cidadão (a), a melhor defesa é manter-se atento (a).

E o grande capital da temporada é a informação, desde que crítica e reflexiva.



Escrito por Narciso Lobo às 22h03
[] [envie esta mensagem] [ ]



Debates políticos pela tv

Os chamados debates políticos pela tv desandam para duelos, ou brigas de galo, ou coisa do gênero. Tornaram-se a forma sutil, contemporânea, de sublimação da velha prática de simplesmente eliminar o adversário. Política, mesmo, no sentido aristotélico...

Muito mais, bem mais, espetáculo, tal como escrevia Debord,

na sua obra clássica A sociedade do espetáculo (1997).



Escrito por Narciso Lobo às 01h24
[] [envie esta mensagem] [ ]



Apoio a Gabeira

Fosse eleitor do Rio, sem pestanejar, votaria em Gabeira.

Aliás, estética e ecologicamente coerente a decisão de Marina Silva ao declarar seu apoio a Gabeira. 



Escrito por Narciso Lobo às 22h02
[] [envie esta mensagem] [ ]



Pânico na Economia

A pergunta que não cala

Diante de tantas notícias falando de perdas de bilhões, trilhões, falências, socorros financeiros de governos, dólar em alta, calotes, bolsas despencando, etc, fica a pergunta: numa hora dessa, em que o dinheiro desaparece das instituições financeiras, para onde, exatamente, ele vai? Ele não pode desaparecer magicamente, como fumaça; portanto, migra para algum lugar. Para onde?  Que lugar é esse? Quem perde e quem ganha, finalmente?



Escrito por Narciso Lobo às 13h20
[] [envie esta mensagem] [ ]



A maldição de Goulart

(Com o retorno da discussão sobre o assassinato de Goulart, republico texto, abaixo, escrito depois de viagem a São Borja/RS, anos atrás; de minha parte, apenas o desejo de entender o passado recente e fechar uma gestalt)

 

            As datas redondas costumam mobilizar historiadores e a própria mídia. É o que está acontecendo com os 40 anos do golpe militar de 31 de março de 1964. Éramos, então, um país de 80 milhões de habitantes, governado por João Goulart, um gaúcho de 46 anos, que se propunha a aprofundar reformas iniciadas com a Revolução de 1930. Talvez o fato novo, nas chamadas “reformas de base” de Jango, era o papel que seu governo atribuía aos trabalhadores urbanos e rurais, já que grande parte das reformas acontecidas, sob o primeiro governo Vargas (1930-1945), vieram através de um figurino autoritário. Jango colocava-se bem mais como herdeiro do segundo governo Vargas (1951-1954).

            O certo é que o movimento de 1964, mesmo operando grandes mudanças econômicas no país, e em particular na região amazônica, o fez procurando, sobretudo pela repressão policial, retirar de cena os segmentos populares. Tivemos assim, nos últimos 40 anos, forte expansão econômica, acompanhada, na mesma proporção, pelo empobrecimento dos grandes contingentes populacionais e pela concentração da riqueza em poucas mãos. É a esse fenômeno que sociólogos e economistas denominam de contra-reforma, ou seja, mudanças que fazem o país crescer, enquanto potência econômica, ao lado de trabalhadores urbanos e rurais cada vez mais fragilizados nos seus direitos, sob a pressão de um enorme exército de desempregados e subempregados. Pode-se mesmo dizer que os governos civis que sucederam ao regime militar, depois de 1985, prosseguiram na mesma rota da contra-reforma, incluindo-se aí, infelizmente, o governo Lula.

            A tragédia de Jango foi ter chegado ao poder, em 1961, num mundo bi-polarizado  pela “guerra fria”, diante da qual quem não rezava pela cartilha do chamado “mundo livre” estadunidense era de imediato colocado na vala comum de “comunista a serviço de Moscou”. Fazendeiro bem sucedido, a obsessão de Jango  era realizar um reforma agrária que pudesse sustentar o desenvolvimento capitalista em bases menos excludentes e injustas, para evitar o clima de medo e violência, de norte a sul, de leste a oeste, que hoje vivenciamos.

            Exilado, Goulart morreu na fronteira do Brasil com a Argentina, em 1976, em circunstâncias não muito bem esclarecidas, dado que naquele momento, em diversos países da América Latina, sobretudo no Cone Sul, estava no auge a repressão articulada da “Operação Condor”, trabalhando pela eliminação de lideranças  de oposição aos ditadores no poder. Por incrível que pareça, à direita e à esquerda, Jango e seu governo ainda não foram devidamente avaliados. Ora aparece como populista e demagogo; ora como despreparado para levar a adiante o seu projeto político. No fundo, ainda é um fantasma, principalmente para aqueles que, tendo alcançado  posições de mando, resolveram substituir suas  bandeiras. É sem dúvida uma figura ímpar da história política recente a desafiar melhor decifração; análise serena e distanciada.

            É possível que a maldição maior, sobre Goulart, é que ele tentou quebrar uma tradição, bem arraigada entre nós, de manter o povo apenas como espectador. E com a única função de bater palmas para o maioral da ocasião.

 

 



Escrito por Narciso Lobo às 21h55
[] [envie esta mensagem] [ ]



Sonhos e devaneios

Os fantasmas emergem na madrugada: nervosos, inquietos, sexis, reclamando cidadania.

Afinal, por que tão reclusos?

Transmutam-se em alegres seres; querem vidas próprias; condensam-se saltitantes; deslocam-se no espaço e no tempo.



Escrito por Narciso Lobo às 12h19
[] [envie esta mensagem] [ ]



Crônica Proustiana

Agosto, 1954

 

Aquela manhã foi se tornando cinzenta e de tarde já era um feriadão. De verdade não conseguia entender direito o que as pessoas conversavam. Eu era menino demais e essa meninice me condenava ao isolamento. Explicar para um garoto o que estava acontecendo, pra quê? Nas primeiras horas da manhã, o mesmo movimento de outros dias: pessoas que voltavam do velho Mercadão, com suas compras, empilhadas em sacolas de palha; carroças que subiam a Rua Dr. Moreira, puxadas por burros lentos e aparentemente meditativos; vez por outra, o velho bonde, rangendo sobre os trilhos fincados entre os paralelepípedos azulados, e bem cortados, herança dos tempos da riqueza da borracha.

            Aquele clima de domingo, em pleno dia de semana, deixava a sensação de  isolamento, de coisa ruim no ar... Aquilo me incomodava; não havia palavras: apenas sensações. Mesmo que no meu ambiente familiar não fosse habitual conversar com o menino, que eu era, havia desenvolvido a capacidade de aguçar os ouvidos para procurar saber, do meu jeito, o que diziam os mais crescidos, ou mais velhos.

            Lembro que naquela época existia um casarão, defronte da minha casa, onde no térreo funcionava um moinho de café, que, naquele dia, ou não abrira, ou fechara logo as suas portas, antes do final da manhã. E, na parte de cima, moravam umas mulheres, bem mais velhas que minhas irmãs. Pareciam vaidosas e com freqüência recebiam amigos.

            Sempre alimentei a vontade de subir as escadas verticais, que davam acesso à morada delas, mas não lembro de ter sido, alguma vez, convidado a subir. Elas eram bastante janeleiras e ficavam grande parte do dia observando, daquele ponto privilegiado, o movimento da rua.

            Eu sempre imaginava que dali veria bem mais coisas do que da janela da minha casa, que era térrea; ou do meio-fio da calçada; cujo meio-fio, nos dias que não chovia, ficava com uma camada esverdeada, misturada com poeira: era o resultado da defecação dos burros, que se alimentavam de capim, e que, vez por outra, sem qualquer pudor, iam deixando a matéria excretada. As carroças inevitavelmente emitiam o ruído característico das rodas, subindo a rua. E, vez por outra, ouviam-se o ricocheteio no lombo preguiçoso do burrico lento e aparentemente cansado, quando diminuía a marcha ou quando empacava (para pensar?):

            Chapt! Chapt! Chapt!

            Como que acordando da letargia, eles voltavam a marchar, rua acima.

            Remexendo na memória, não lembro se o morador da casa de esquina com o Beco do Comércio foi para a janela ensaiar música, com seu violino triste, como sempre fazia, nas tardes de domingo.

            Poxa, até a “Casa Mão Negra”, mercearia de portugueses, que vendia balas de açúcar, fechou naquele dia; e não era domingo. Para não alongar muito essa história, esse foi um dia atípico; ninguém merece. Apenas, com os ouvidos aguçados, consegui reter fiapos de conversas dos adultos – agora poucos – que passavam, de volta do mercadão; com algum esforço, identifico certa gravidade no falar dessas pessoas; lembro que falavam baixo, tanto que apenas uma frase ficou na minha memória. E na verdade a gravidade – penso hoje - não estava apenas nas palavras, mas nas faces contraídas. E a frase que ficou bem gravada foi essa: “O presidente se matou!”

            Mas tudo isso me soava muito distante; era como se ele – presidente – tivesse vivido e morrido em outro planeta.



Escrito por Narciso Lobo às 23h47
[] [envie esta mensagem] [ ]



Consultório Filosófico

Regras de Kant

para se evitar o erro

"As regras e condições para se evitar o erro em geral são:

1) pensar por si mesmo,

2) pensar colocando-se no lugar de outra pessoa, e

3) pensar sempre de maneira coerente consigo mesmo.

A máxima de pensar por si mesmo, podemos chamá-la de esclarecida;

a máxima de se colocar no ponto de vista do outro, podemos chamá-la de ampliada;

e à máxima de pensar sempre de maneira coerente consigo mesmo, podemos chamar-lhe a maneira de pensar consequente ou cogente."

(Fonte: Lógica: Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 2003, p. 74)



Escrito por Narciso Lobo às 23h07
[] [envie esta mensagem] [ ]




[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]